Arquivo para Abril 5, 2008

Atribulações e triunfos da interferência de RNA

Os investigadores conseguiram silenciar minúsculos segmentos de RNA em macacos usando uma técnica de terapia génica.

O seu sucesso pode vir a oferecer uma nova via para o tratamento de várias doenças, desde o cancro ao problemas cardiovasculares.

No entanto, outro estudo sobre a forma como funciona a interferência de RNA (RNAi), desta feita em ratos, lança algumas dúvidas sobre até que ponto os investigadores compreendem o processo e sugere cautela na aplicação da técnica em humanos.

No estudo realizado com macacos, os investigadores analisaram micro-RNA (miRNA), pequenos segmentos de RNA que regulam genes e desempenham um papel em muitas doenças. Interferir com estas pequenas moléculas de RNA, em vez de interferir com o RNA que corresponde a um único gene, oferece uma forma de atingir vias metabólicas inteiras de uma única vez, o que torna a técnica uma ferramenta potencialmente muito poderosa.

Sakari Kauppinen, da Santaris Pharma, empresa sediada em Hørsholm, Dinamarca, estudou um miRNA que actua no fígado regulando o metabolismo do colesterol e gordura. Ao silenciar este RNA em macacos verdes africanos conseguiram reduzir a quantidade de colesterol no sangue dos animais, relata a equipa na revista Nature.

Os investigadores já tinham conseguido abafar o efeito de miRNA em roedores mas Kauppinen diz que esta foi a primeira vez que se demonstrou que a técnica funciona em primatas.

Os minúsculos segmentos de RNA e as vias metabólicas que eles governam podem “fornecer novas vias terapêuticas contra doenças que não são sujeitas a outras aplicações”, diz Kauppinen. A molécula de miRNA que ele silenciou, chamada miR-122, também desempenha um papel na hepatite logo a equipa espera iniciar testes clínicos usando interferência de miRNA contra esta infecção ainda este ano.

Mas um segundo estudo, também publicado na revista Nature, pinta um quadro menos rosado da terapia de RNAi.
Jayakrishna Ambati, da Universidade do Kentucky, Lexington, estudou os efeitos da RNAi em genes envolvidos numa forma grave de cegueira chamada degeneração macular relacionada com a idade (DMI). Testes com medicamentos com interferência de RNA já tinham sido iniciados em humanos no caso desta doença mas as últimas descobertas vão contra o que era aceite sobre a forma como esta técnica funciona.

Em formas severas de DMI, os vasos sanguíneos crescem sobre a retina e causam a cegueira. A ideia é suprimir este crescimento silenciando um gene chamado VEGFA através de um molécula RNAi de pequena dimensão (siRNA, de acordo com a sua designação inglesa ’short interfering RNA’) com uma sequência complementar. Um siRNA chamado bevasiranib está a ser testado em testes clínicos fase III no tratamento da DMI.

Mas quando Ambati foi analisar a forma como o siRNA funcionava, descobriu que ele apenas conseguia abrandar o crescimento dos vasos sanguíneos, fosse qual fosse a sequência da molécula de siRNA que usasse.

Os siRNA “têm um mecanismo de acção que é completamente diferente do que se alegava ser”, diz Ambati. Ele sugere que em vez de suprimir um gene específico, a RNAi funciona neste caso desencadeando uma resposta imunitária genérica no olho, o que reduz o crescimento dos vasos sanguíneos.

Esta resposta genérica até acaba por ser útil na DMI mas pode não o ser no caso de outras doenças. E é problemático pensar que os investigadores não sabem como o RNAi funciona. “Testes clínicos devem ser abordados com grande cautela, por esse motivo”, diz Ambati.

Esta não é primeira vez que se apelou à cautela sobre os efeitos indesejados da RNAi mas a maioria dos efeitos desadequados são causados por moléculas de RNA que alteram a expressão de genes que não são o alvo da terapia e não por iniciarem este tipo de resposta generalizada.

A maior parte dos estudos apoiam a ideia de que a RNAi funciona de forma específica da sequência, diz Sam Reich, vice-presidente executivo da OPKO Health de Miami, que produz o bevasiranib. Ele refere que “respeitosamente discorda” das conclusões de Ambati.


Fonte: Simbiotica


Saber mais:

Santaris Pharma
Opko Health
Algodão sem toxinas pode alimentar os mais pobres

Deixe um comentário

Descoberto o gene da implacabilidade?

Os ditadores egoístas podem dever, em parte, o seu comportamento aos genes, de acordo com um estudo que alega ter descoberto uma associação genética com a implacabilidade.

O estudo pode ajudar a explicar as tendências gananciosas daqueles com um lado maquiavélico, desde ditadores nacionais aos ‘pequenos Hitlers’ que encontramos todos os dias nos nossos locais de trabalho.

Investigadores da Universidade Hebraica de Jerusalém descobriram uma ligação entre um gene chamado AVPR1a e o comportamento implacável num exercício económico conhecido por ‘Jogo do Ditador’.

O exercício permite aos jogadores comportarem-se altruisticamente ou como ditadores gananciosos, como o antigo presidente do Zaire Mobutu, que pilhou a riqueza mineral do seu país para se tornar um dos homens mais ricos do mundo enquanto os seus cidadãos sofrem as consequências da pobreza extrema.

Os investigadores não compreendem o mecanismo pelo qual o gene influencia o comportamento. Pode significar que para alguns o velho adágio “é melhor dar que receber” não é verdade, diz o líder da equipa Richard Ebstein. Os centros de recompensa no cérebro dessas pessoas podem retirar menos prazer de actos altruístas, sugere ele, levando-os a ter comportamentos egoístas.

Ebstein decidiu estudar o AVPR1a por este gene ser conhecido por produzir receptores para a vasopressina, uma hormona envolvida no altruísmo e nos comportamentos ‘pro-sociais’, no cérebro. Estudos com cães da pradaria já tinham demonstrado que esta hormona é importante na manutenção da forte união existente nos grupos sociais destes roedores.

A equipa de Ebstein propôs-se descobrir se as diferenças na forma como este receptor é expresso no cérebro humano tornariam diferentes pessoas mais ou menos generosas.

Para o descobrir, testaram amostras de DNA de mais de 200 estudantes voluntários, antes de lhes pedir que jogassem o Jogo do Ditador (os voluntários não sabiam o nome do jogo, para o seu comportamento não ser influenciado).

Os estudantes foram divididos em dois grupos: ‘ditadores’ e ‘recebedores’, os chamados participantes ‘A’ e ‘B’. A cada ditador foi dito que poderiam receber 50 shekels (cerca de €10) mas eram livres de partilhar o que quisessem com um recebedor que nunca tinham conhecido. Portanto, as fortunas dos recebedores dependiam inteiramente da generosidade do ditador.

Cerca de 18% de todos os ditadores ficaram com o dinheiro, relata Ebstein na revista Genes, Brain and Behavior. Cerca de um terço dividiram o dinheiro ao meio e uns generosos 6% deram-no todo.

Não houve relação entre o género dos participantes e o seu comportamento, relata a equipa, mas havia uma associação com o comprimento do gene AVPR1a: as pessoas tinham maior tendência para serem egoístas quanto mais pequena fosse a sua versão do gene.

Não é claro de que forma o comprimento do AVPR1a afecta os receptores de vasopressina mas pensa-se que em vez de controlar o número de receptores possa controlar onde, no cérebro, eles se encontram. Ebstein sugere que os receptores de vasopressina no cérebro de pessoas com a versão curta do AVPR1a podem estar distribuídos de forma a fazer com que sejam menos recompensados pelo acto de dar.

Ainda que o mecanismo não seja claro, diz Ebstein, a equipa tem quase a certeza de que as ditaduras egoístas e gananciosas têm uma componente genética. Seria mais fácil confirmar esta hipótese se os grandes ditadores tivessem deixado vivos gémeos idênticos, para verificarmos se eles seriam tão implacáveis como os irmãos que conhecemos.

Ainda assim, os investigadores devem ser cautelosos com a utilização de uma ferramenta pouco precisa como o Jogo do Ditador para tirar conclusões sobre a generosidade humana, diz Nicholas Bardsley, da Universidade de Southampton, estudioso destes jogos.

A sua investigação sugere que jogadores que regularmente dão dinheiro como ditadores também não se importam nada de tirar dinheiro a outros em jogos que envolvam tirar em vez de dar. Isto sugere que os jogadores aparentemente mais altruístas no jogo de Ebstein podem, de facto, ser motivados pelo simples desejo de participar mais activamente no jogo, talvez por acharem que é o deles se espera.

Se isso for verdade, então a aparente implacabilidade dos ditadores pode não ser motivada por ganância pura e simples mas antes pela falta de competências sociais, que não lhes permite avaliar o é deles esperado.

Isso encaixa certamente com a imagem de um ditador ingénuo ainda que arrogante, sem noção da falta de adequação das suas acções e atitudes. Essas figuras têm surgido com surpreendente regularidade ao longo da história, desde imperadores romanos a Napoleão Bonaparte, Benito Mussolini, Saddam Hussein ou Robert Mugabe, que se agarra tenazmente ao poder em face de resultados eleitorais duvidosos.

Fonte: Simbiotica

Saber mais:

Dinheiro compra felicidade

Descoberto o gene que faz o gato escaldado ter medo de água fria

Vingança dá mais satisfação aos homens

Olhos do Big Brother aumentam a honestidade

A verdadeira razão porque gostamos de descompor outros

Deixe um comentário