É possível ser 100% verde durante um dia?

No dia 22 celebrou-se mais um Dia da Terra. Desde 1970, ano em que se celebrou pela primeira vez este dia, muito mudou no pensamento ecológico. Em 1970 a ideia deste dia emergiu de um caldo fervilhante de ideias progressistas dos opositores à guerra do Vietnam. 38 anos depois, muitas das lutas e reivindicações foram ganhas, ou pelo menos conquistaram a consciência da maioria dos cidadãos ocidentais. Entre os sucessos na consciencialização encontram-se os problemas dos resíduos, da poluição atmosférica, dos resíduos nucleares ou, mais recentemente, das alterações climáticas.

Infelizmente, uma das áreas fundamentais para a própria existência do ser humano continua a ser largamente ignorada e espezinhada no dia-a-dia, em particular no nosso país. Trata-se da área da alimentação. O modelo agro-industrial desenvolvido pela Revolução Verde trouxe-nos as mais diversas ameaças, que entram no nosso corpo a cada dia. A opção de escolha é cada vez menor e somos obrigados a consumir tudo, porque comer é algo que ninguém pode dar-se ao luxo de rejeitar. Pesticidas, fertilizantes, conservantes, aditivos e rações animais com medicamentos ou com próprios restos animais (que deram origem à BSE ou doença das vacas loucas), contaminaram a nossa cadeia alimentar ao longo das últimas décadas.

A última ameaça surgiu com os transgénicos e o direito à escolha de uma alimentação natural pode estar a ser posto em causa com a libertação destes organismos vivos (e, como tal, potencialmente incontroláveis) nos nossos campos agrícolas. Infelizmente, a consciência ecológica da nossa sociedade ainda não atingiu um dos bens mais essenciais para a Humanidade: os alimentos. Prova disso é o artigo que há 2 dias atrás saiu no Diário de Notícias, intitulado “Ser 100% por um dia”. No artigo, uma peça aliás muito interessante, a jornalista tenta assumir um comportamento ecológico a todos os níveis – desde os transportes até aos alimentos no supermercado. Em tudo o que procura, encontra mais ou menos sempre o que precisa para ser pelo menos um pouco mais ecológica. Tudo, menos na pergunta sobre transgénicos, onde a jornalista, ao perguntar se têm cereais com garantias de que o milho não é transgénico, recebe um “Ui, isso não sei…”, com um sorriso do funcionário que estava a ser tão prestável.

É sobretudo por esta razão, pela falta do nosso direito à escolha, que a luta contra os transgénicos é hoje uma luta tão importante e urgente de travar. Porque é agora que temos que mostrar e gritar que queremos decidir aquilo que comemos e não ser forçados a consumir alimentos que foram manipulados em laboratório por um punhado de multinacionais de interesses duvidosos. Porque devemos dizer que os seres vivos e a alimentação são um bem de cada ser humano e do planeta Terra e não devem ser propriedade de uma empresa que detém uma patente. Porque os agricultores têm direito às suas sementes e nós temos direito ao nosso prato.

Se não agirmos agora, quando os transgénicos estiverem por todos os campos, fazendo sorrir os CEOs da Monsanto, da Pioneer, da Syngenta ou da Bayer, então será tarde demais. Numa Natureza em que não há fronteiras, também os nossos pratos serão uma parte do gigantesco laboratório de ensaios destas empresas. É tempo de dizer basta e de enfrentar os interesses obscuros da indústria e a sua infiltração na esfera política. A vontade dos cidadãos deve ser respeitada, para que o Dia da Terra também seja um dia dos seres humanos!

Gualter Barbas Baptista
22 de Abril de 2008

Fonte: http://gaia.org.pt/node/14414

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