Alimentação: Intermediários sufocam agricultores

Por Matt Homer, da IPS

Nova York, 29/04/2008 – Os estoques mundiais de grãos registram
quedas sem precedentes. Os preços agrícolas andam nas nuvens. Esta
situação renova a busca por melhores métodos de cultivo para atender a
demanda alimentar. Durante muito tempo, Estados Unidos e Europa
praticaram uma agricultura industrial, com um incessante aumento da
produção. Mas esses mecanismos são questionados cada vez mais, pela
tendência monopolista das empresas do setor e problemas de
sustentabilidade. Para aumentar a produção de maneira sustentável, os
especialistas em agricultura buscam modelos alternativos, ou, pelo
menos, variações significativas para as práticas industriais
predominantes.

Um estudo sobre a agricultura mundial, elaborado por representantes
de 110 países e instituições-chave, conclui que a América do Norte está
cada vez mais dominada por uma estrutura agrícola vertical. Segundo a
Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no
Desenvolvimento Agrícola (IAASTD), publicada em meados deste mês, “os
grandes atores têm uma influência predominante sobre a produção, o
processamento e a comercialização de alimentos”.

As práticas industriais e monopolistas desvinculam os produtores
dos consumidores, e garantem que aqueles que ficam com a maior parte
dos lucros são as grandes empresas e não os agricultores. O preço médio
da cesta de alimentos aumento 2% em termos reais nos últimos 20 anos,
enquanto a renda dos agricultores caiu 40%, segundo o especialista Raj
Patel. A União Nacional de Agricultores dos Estados Unidos calculou que
para cada dólar gasto pelos consumidores deste país em alimentos,
apenas 20 centavos vão realmente para os produtores. O restante acaba
nas empresas encarregadas do “marketing, processamento, venda no
atacado, distribuição e venda no varejo”.

Esta concentração cada vez maior significa que cada vez menos
agronegócios influem sobre a cadeia de fornecimento de alimentos. Os
que criticam esta situação visualizam o esquema predominante como um
relógio de areia: uma grande quantidade de produtores deve canalizar
suas mercadorias através de um punhado de grandes corporações antes de
abrir-se caminho aos consumidores.

Uma investigação feita pela socióloga rural Mary Hendrickson, da
Universidade do Missouri, demonstra que a influência dos agronegócios
nos Estados Unidos aumentou de modo significativo. As quatro maiores
processadoras de soja concentram agora 80% do mercado, enquanto em 1977
representavam apenas 54%. As quatro principais processadoras de farinha
de trigo passaram dos 42% do mercado em 1982 para 60% atuais.

Mas a concentração existe nos dois extremos do negócio agrícola
norte-americano. Os dois principais fornecedores de sementes dominam
58% do mercado, e quase a metade dos alimentos é vendida em apenas
cinco redes varejistas: wal-Mart, Kroger, Albertson’s, Safeway e Ahold.
Os críticos dizem que esta tendência ao monopólio tem um impacto
perverso na competição e, em conseqüência, nos preços para o consumidor.

“Qualquer matéria-prima onde quatro indústrias ou menos controlam
cerca de 60% corre o risco de cair em um cartel de preços”, escreveram
Denis Keeney e Loni Kemp, do Instituto para a Agricultura e as
Políticas Comerciais, em uma avaliação sobre a agricultura
norte-americana. “Os produtores não têm controle sobre os preços do
mercado, e os consumidores, com o tempo, pagarão preços mais altos”,
acrescentaram. Os pequenos produtores agropecuários foram
particularmente afetados pela configuração de relógio de areia da
agricultura norte-americana.

Dependem forçosamente de um punhado de grandes compradores e de
umas poucas grandes corporações que lhes vendem sementes e
fertilizantes, e têm pouca capacidade de influir no preço de seus
produtos. Devido às restrições aos direitos de propriedade intelectual
sobre as sementes, frequentemente devem comprar sementes todos os anos.
Isto significa que, embora os agricultores superem em número os
compradores e fornecedores de insumos, têm muito menos influência. E
embora uma quantidade significativa de subsídios do governo esteja
dirigidos à agricultura, uma ínfima fração desses fundos chega aos
pequenos produtores agropecuários.

Além das distorções do comportamento monopólico, a agricultura em
escala industrial também está sob ataque por razões de
sustentabilidade. “Vimos impactos ecológicos adversos sobre a qualidade
de águas e solos e sobre a biodiversidade”, disse Hendrickson à IPS. “O
uso de insumos sintéticos (fertilizantes, pesticidas, etc) potenciou a
produtividade de uma maneira fabulosa, mas, teve alguns impactos
sérios”, acrescentou. Keeney e Kemp coincidiram, afirmando em seu
informe que “não se vê como prolongar esta estrutura no próximo século
por depender tão fortemente dos combustíveis fósseis, dos subsídios ao
contribuinte e dos fatores ambientais”.

A agricultura industrial já derivou em “contaminação das águas
(superficiais e subterrâneas, zonas de hipoxia – deficiência de
oxigênio), incremento de inundações, esgotamento das águas
subterrâneas, contaminação aérea, odores excessivos, mudança climática,
perda de habitat natural, degradação de ecossistemas naturais, perda de
polinizadores, perda de qualidade do solo e erosão do solo”. Os que
propõem uma agricultura em grande escala alegam que, de todo modo,
ainda é a maneira mais eficiente de produzir grandes quantidades de
alimentos. Dizem que se adapta melhor à abertura de novas áreas de
cultivo, aumentando, assim, a produtividade.

O argumento tem sua origem nas economias de grande escala. As
firmas maiores podem consolidar suas funções e assim reduzir custos.
Por exemplo, enquanto cada pequeno estabelecimento agrícola necessita
de seu próprio trator, uma firma agrícola industrial com múltiplos
estabelecimentos poderia compartilhá-lo. Entretanto, estas alegações de
maior eficiência são questionadas especialmente ao se considerar os
custos extremos associados com este método: contaminação, esgotamento
do solo, etc.

Críticos como Gary Howe, do Fundo Internacional para o
Desenvolvimento Agrícola, dizem que a agricultura indústria não pode
ser considerada mais eficiente do que a de pequena escala, devido à sua
forte dependência dos subsídios. Howe também destacou a grande
produtividade gerada a partir da agricultura em pequena escala nas
“revoluções verdes” da Ásia. Uma chave importante para o futuro da
agricultura é mudar a medida do sucesso, disse Hendrickson. Esta
deveria se afastar de considerações como quanto se cultiva por
superfície para algo mais parecido com a quantidade de nutrientes
produzidos na mesma área.

A avaliação latino-americana da IAASTD “mostrou que as estratégias
agro-ecológicas podem ser tão, ou mais, produtivas quanto a atual
agricultura intensiva em grande escala, que dependem dos insumos
externos”, destacou Hendriuckson. “Provavlemnte, eles sejam um modelo
melhor para impulsionar a produção alimentar, exatamente nas áreas que
a necessitam”, concluiu. Estes métodos “utilizam conhecimento
local/tradicional e descobertas da ciência formal, e que estão
adaptados ao seu particular nicho social e ecológico”.

Enquanto o mundo enfrenta uma situação agrícola desesperada, os
especialistas esperam que se possa estimular a produção, reduzir os
preços e melhorar a sustentabilidade ao mesmo tempo. Embora haja varias
opções disponíveis, muitos concordam que se deve começar dando aos
agricultores maior influência dentro da cadeia alimentar, e rompendo a
influência monopolista e insustentável dos grandes agronegócios.

Fonte:Envolverde/IPS

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