Casais contam como superam a incompatibilidade alimentar

O casal Bruna, vegetariana, e Thiago, "carnivoro", convivem com as diferenças Leo Caobelli/Folha Imagem

O casal Bruna, vegetariana, e Thiago, “carnívoro”, convivem com as diferenças

Eles são como água e vinho. Dalva adora comer peixe; Jayme odeia. O único peixe de que ela não gosta é justamente o único que ele aprecia –bacalhau. Jayme é supercarnívoro; Dalva, não. A única carne vermelha que ela põe na boca é a única que ele detesta –fígado. Dalva às vezes toma vinho ou caipirinha; Jayme não ingere absolutamente nada alcoólico.

Se dependesse de afinidades gastronômicas, o namoro de Dalva Barbosa, 38, e Jayme Akira Minoda, 36, nunca teria vingado. Juntos há mais de três anos, os analistas de sistemas transformaram em bom humor as incompatibilidades à mesa.

“Ele é descendente de japonês e, teoricamente, deveria gostar de peixe, né? Mas não, é um japonês que prefere tutu e feijão-tropeiro”, brinca Dalva. “Comida japonesa me faz mal. Prefiro feijoada”, justifica ele.

Compartilhar refeições, algo tido como um ato de amor e até como uma etapa indispensável no ritual de conquista, pode não ser o ponto alto no relacionamento dos analistas mineiros. Mas tampouco é empecilho. Apesar de não comer porco, Dalva cozinha para o namorado o lombo com bacon de que ele tanto gosta… desde que alguém frite o toicinho. “Não suporto o cheiro”, diz ela.

Shoyu a tiracolo

Nem sempre, porém, a incompatibilidade alimentar limita-se ao gostar, ou não, de um sabor. Quando a psicóloga Mariela Nobel, 40, conheceu o psiquiatra Luís, 49, achou lindo ele ter pedido, em uma casa de lanches, um prato sem pão. “Eu me apaixonei. Que homem diferente! Me cativou comendo seu lanche sem pão. Mal sabia eu o que era”, lembra Mariela.

Foi num jantar que ela descobriu o porquê de Luís ter declinado o pão: ele é celíaco (tem intolerância permanente ao glúten) e alérgico a milho, leite e derivados. “Rapidamente passou pela minha mente que, se a gente se apaixonasse, eu teria de me adaptar à ausência desses alimentos todos.”

Tudo bem não fosse o fato de Mariela ser gourmet, superentusiasta de risotos com bastante manteiga e creme de leite, de queijos, pães e outras iguarias.

“No começo, como sempre gostei de cozinhar, era difícil não poder fazer para ele aquilo que eu sabia. Mas a incompatibilidade acabou acrescentando possibilidades à minha culinária. Graças ao Luís, aprendi a cozinhar diferente. E sabe que as receitas que eu faço agora estão mais gostosas?”

Fora de casa, eles recorrem a restaurantes onde já sabem que há pratos que Luís pode comer, mas não se limitam a eles. Nem que, para isso, tenham de levar na bolsa um vidro de shoyu livre de trigo. “Não ir a restaurantes japoneses era frustrante, hoje não é mais. Trouxeram para ele, de Nova York, um shoyu fermentado a partir da própria soja. Está ótimo! Saímos com a sacolinha, a mamadeira.”

Casados há seis anos, a decoradora Fabíola Sigismondi, 30, e o consultor de vendas José Roberto Sigismondi, 30, compartilham a paixão por camarão. Só que, por ele ser alérgico, ela raramente come o crustáceo. “É engraçado, porque casamos e fomos morar em Florianópolis, a cidade dos frutos do mar. Sou desesperada por uma seqüência de camarão. Um dia eu pedi, e ele comeu e passou supermal”, diz Fabíola. “Agora, quando vamos para lá, não peço mais, porque ele é esganadinho e vai querer. Só como quando ele não está, ou escondida.”

Desta carne, não comerei

No relacionamento dos administradores de empresas Andrea, 30, e Sérgio Salfatis, 34, as diferenças alimentares começaram há cinco anos, quando Andrea resolveu seguir a dieta kosher (comidas preparadas segundo as regras judaicas). Apesar de às vezes invejar os pratos não-kosher do marido –afinal, sabe bem o gosto de cada alimento–, Andrea brinca que o deixa comer o que quiser.

“O Sérgio é mais chato comigo do que eu com ele. Fica tentando negociar o meu prato, definir o que vou comer.”

Em tom de brincadeira, ele rebate: “Isso de querer experimentar mais pratos é coisa de grego, eu sou descendente. Só sugiro. Quando a gente viaja e eu a vejo pedindo ‘ceasar salad’, digo que, se ela quiser, eu posso pegar uma alface e ralar queijo em cima. O custo é muito alto”.

Cheeseburguer sem carne

Ovolactovegetariana desde os 11 anos, a nutricionista Bruna Nieble, 25, namora há mais de dois anos o advogado Thiago Pagliuso Teno, 24, louco por picanha e hambúrguer. “Minha sorte é que agora as lanchonetes começaram a pensar nos vegetarianos. Não preciso mais pagar o mico de pedir cheeseburger sem hambúrguer.”

Bruna, que dá aula de culinária para crianças, vez ou outra diz ser obrigada a provar carne. “Só degusto nas minhas aulas. No dia-a-dia, não como de jeito nenhum. Ele sabe disso e acha legal, tem esperança que eu deixe de ser vegetariana”, diz. Thiago contesta: “Antigamente eu era mais otimista, mas hoje sei que isso não vai adiantar.”

Gerente de um restaurante vegetariano, o universitário Amir Abdul, 26, é vegan (não come qualquer produto de origem animal) há nove anos. Ele, que era daqueles que pediam para o garçom “descer no prato o espeto de coração de galinha”, recentemente resistiu a um relacionamento porque a menina não era vegetariana.

É Amir quem conta: “Foi amor à primeira vista, mas comecei a imaginar o nosso convívio. Eu não beijaria uma pessoa que acabou de tomar um copo de leite ou que mastigou uma picanha. Sem contar o temperamento de quem consome carne. Altera tudo, até o cheiro [da pessoa].”

JANAINA FIDALGO
da Folha de S.Paulo

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