"Pegadas de carbono" obcecam Reino Unido

Medida permite saber quanto CO2 é usado na produção de mercadorias; onda leva até a enterros ecológicos em caixões de bambu

Consumo também é levado em consideração na hora de os britânicos, cada vez mais preocupados com o meio ambiente, fazerem compras

Alastair Grant – 19.abr.08/Associated Press

Mulher observa caixão em exibição do que seria um “funeral ecológico”, em Londres; no ano passado, 12,6 mil britânicos foram enterrados dessa maneira

RAFAEL CARIELLO
DE LONDRES

A sala de velório do cemitério Herongate, em Brentwood, meia hora de trem a leste de Londres, é simples: duas velas enfeitam uma mesa logo na entrada, 45 cadeiras de madeira clara oferecem algum conforto para os familiares, e a escassa luz de um típico dia chuvoso pode entrar no ambiente por janelões de vidro. Mas o que realmente a distingue é o caixão, para onde tudo converge.
Feito de um material que parece uma palha entrelaçada, guarda um corpo que não foi embalsamado, enrolado apenas numa manta de algodão grosso. Com esse arranjo, pelo fato de o conjunto ser supostamente mais biodegradável que caixões convencionais, o defunto e a família tornam públicas preocupações ecológicas.
Há uma relação entre essa cerimônia e a garçonete que, quilômetros a oeste dali, serve água com gás a um dos clientes do restaurante “Acorn House”, na capital do Reino Unido. Quase nada no cardápio do estabelecimento viajou muito até chegar à mesa do freguês, de modo que menos combustível foi queimado, e menos dióxido de carbono, lançado na atmosfera. A água é inglesa, “sparkling Belu”, e traz no rótulo a mensagem: “Todos os lucros são revertidos para projetos de preservação de água natural”.
São sinais da preocupação ambiental que virou uma obsessão e um negócio cada vez mais lucrativo para os britânicos. Diferentemente de outros pecados intangíveis, as atitudes ecologicamente incorretas podem ser agora medidas mais exatamente, pesadas. Um índice chamado “pegada de carbono” permite quantificar a contribuição de governos, empresas e pessoas para o efeito estufa e o aquecimento global.
O próprio governo criou no ano passado um medidor oficial do volume de gás carbônico lançado na atmosfera. A tal pegada contabiliza o quanto de CO2 é liberado de forma direta ou indireta na produção, no transporte e na comercialização de um produto ou serviço.

Matemática
Para calcular a pegada de carbono de uma dúzia de maçãs embaladas industrialmente, por exemplo, é preciso saber quanto combustível é consumido em aviões que lançam agrotóxicos nos pomares, no transporte do local de plantio até o supermercado e na fabricação e transporte do saco plástico que as embala, entre outras formas pelas quais o produto contribui para o efeito estufa.
No caso do caixão “ecológico”, fabricado pela empresa Ecoffins, a pegada de carbono é de aproximadamente meio quilo por unidade, contabilizado o gasto com combustível no transporte desde a China, onde a peça é fabricada, e o número de esquifes que viaja por vez.
A propósito, cresce o número de britânicos que escolhem uma forma ecologicamente correta para seus funerais. Segundo o Natural Death Centre, organização que orienta o público para a compra de caixões biodegradáveis (feitos de bambu ou cartolina grossa) e a contratação dos serviços de cemitérios ecológicos (sem lápides de pedra ou metal), 12,6 mil pessoas foram enterradas num desses locais no ano passado, bem mais que as 4.800 de 2003.
Cada britânico lança em média cerca de dez toneladas de dióxido de carbono na atmosfera a cada ano, segundo dados da Divisão de Estatísticas das Nações Unidas. É metade da média americana e bem mais do que a quantidade de CO2 produzida por um brasileiro no mesmo período, 1,8 tonelada.
Se o consumidor sabe especificamente quanto contribui em cada compra, ao viajar ou ligar o aquecedor, ele pode se planejar e controlar a sua emissão pessoal de gás carbônico.

Ecologia de massa
É tendo em vista isso que a rede de supermercados Tesco, a maior do Reino Unido, promete fazer uma “revolução em consumo ecológico” a partir do mês que vem, quando passará a registrar a pegada de carbono na embalagem de cada um de seus produtos. Terry Leahy, presidente do grupo, disse que isso significará levar o “movimento verde” ao mercado de consumo massificado.
Dar ao consumidor a possibilidade de comparar as “pegadas” poluidoras deste e daquele iogurte faz sentido, do ponto de vista mercadológico, quando se conhecem os números da preocupação crescente dos britânicos com o meio ambiente.
Pesquisa feita no ano passado pelo departamento de assuntos ambientais, rurais e alimentares mostra que os britânicos apontam como quarto principal problema o meio ambiente (19% das pessoas o incluíram entre as prioridades), só atrás de crime (49%), saúde (47%) e educação (36%).
Em 2007, 58% dos britânicos diziam estar reduzindo o consumo de gás e eletricidade em casa para ajudar a diminuir o impacto no efeito estufa, contra 40% em 2001. A proporção dos que diziam estar diminuindo o consumo de água era de 52%, contra 29% em 2001.

Vizinhos se unem para controlar consumo; quem abusa paga multa
DE LONDRES
No início de outubro do ano passado, o sistema de aquecimento central da casa de Tom Hitchman, 45, quebrou. O documentarista, que mora em Londres, resolveu deixar as coisas assim mesmo e se agasalhar um pouco mais.
Quando o inverno apertou, comprou um fogão a lenha, mandou instalá-lo na cozinha, e passou o restante da estação quase que exclusivamente naquele cômodo da casa.
As atitudes aparentemente extravagantes ajudaram Hitchman a 1) contribuir em menor escala para o aquecimento global (sistemas de aquecimento estão entre os artigos de consumo que mais contribuem para a liberação de dióxido de carbono) e 2) fazer boa figura frente aos seus colegas do “Crag” de Islington, bairro residencial na região norte londrina.
“Crag” é a sigla em inglês para Grupo de Ação para o Racionamento de Carbono. Há cerca de 30 grupos desse tipo hoje no Reino Unido -o primeiro foi fundado no final de 2006. Cada um reúne entre uma e duas dezenas de pessoas, em alguma cidade ou bairro específico.
Seu objetivo é estabelecer metas de redução da emissão de carbono para os integrantes, que se reúnem a cada mês para avaliarem o progresso pessoal e trocarem solidariedade mútua e experiências. Também é fixada uma penalidade caso o participante ultrapasse o limite acordado para cada ano.
No ano passado, no “Crag” de Islington, a meta era não ultrapassar quatro toneladas de emissão por pessoa em consumo de gás, eletricidade e aquecimento dentro de casa e no uso de transporte individual ou coletivo. Se considerados só esses serviços, a média britânica de emissão de CO2 é de cinco toneladas por pessoa ao ano.
A penalidade para quem não conseguisse se manter dentro da meta foi de 5 pence (centavos de libra) por cada quilo excedido. Doug Angus, 50, teve que fazer uma viagem à Argentina, e o dióxido de carbono liberado pelo avião que o levou até lá fez o engenheiro ultrapassar em quase quatro toneladas a meta. Distribuiu as 183 libras que devia entre os colegas do “Crag” de Islington. Quem tinha crédito recebeu proporcionalmente à economia feita.
A idéia dos “Crags” é ir baixando o limite de emissão de CO2 a cada ano. Para 2008, a meta é 10% menor.
“O objetivo é que, em 2029, nós estejamos emitindo cerca de 400 kg de CO2 por ano”, diz Jessica Rayburn. “Isso representaria redução de 90% em relação à emissão média no Reino Unido em 2006. Um tal corte seria o que pesquisas científicas indicam que países desenvolvidos como o nosso precisariam fazer se quisermos evitar um aquecimento do planeta acima de dois graus. Um aumento menor do que esse é o que os cientistas pensam que possa ser um nível de mudança climática ainda manejável.” (RC)

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