A Tecnologia, o Consumismo e seus Impactos Sócio-ambientais

Maurício Novaes Souza (*) e Maria Angélica Alves da Silva (**)

A humanidade herdou um acúmulo de 3,8 bilhões de anos de capital
natural: mantendo-se os padrões atuais de uso e degradação, muito
pouco há de restar até o fim do século XXI. Considerando a recente
crise econômica, que tanto tem preocupado a população e os governos
mundiais, ninguém percebe que se está perdendo mais dinheiro com o
desaparecimento das florestas do que com a atual crise financeira
global, segundo conclusões de um estudo encomendado pela União
Européia. A pesquisa foi realizada por um economista do Deutsche
Bank, que calculou que os desperdícios anuais com o desmatamento
variam em uma faixa de US$ 2 trilhões a US$ 5 trilhões.

Para se chegar a esses números, é necessário saber que os serviços de
armazenamento de água e da regulação do ciclo de carbono, entre
outros, realizados gratuitamente pela natureza, criam condição para
um meio ambiente saudável, oferecendo não só água e ar limpos,
chuvas, produtividade oceânica, solo fértil e elasticidade das bacias
fluviais, como também certas funções menos valorizadas, mas
imprescindíveis para a manutenção da sustentabilidade, tais como: a)
o processamento de resíduos (naturais e industriais); b) a proteção
contra os extremos do clima; e c) a regeneração atmosférica.

Contudo, nas últimas três décadas se consumiu um terço dos recursos
da Terra, ou seja, de sua riqueza natural. É sabido que ecossistema é
um sistema aberto integrado por todos os organismos vivos, inclusive
o homem, e os elementos não viventes de um setor ambiental definido
no tempo e no espaço. Suas propriedades globais de funcionamento
(fluxo de energia e ciclagem da matéria) e auto-regulação (controle)
derivam das relações entre todos os seus componentes, tanto
pertencentes aos sistemas naturais, quanto aos criados ou modificados
pelo Homem.

Com o aumento populacional que se deu no último século e com o
surgimento de novas tecnologias, aceleraram-se as atividades
econômicas de acordo com suas supérfluas e ilimitadas necessidades,
em uma velocidade jamais vista. Tudo isso acontece a partir de uma
visão antropocêntrica clássica – o homem e suas interações com o
ambiente à sua volta devem se fazer de forma prioritária, e
descompromissada, modificando e transformando os ambientes naturais
para que sejam satisfeitas as suas vontades.

Os resultados dessas ações são facilmente perceptíveis ao longo de
toda a biosfera. Esta interferência ocorre em diversos níveis, agindo
diferentemente sobre os componentes ambientais: ar, solo, água e
seres vivos. Os reflexos, geralmente desastrosos, podem ser
observados, por exemplo, nas atividades agropecuárias e florestais,
particularmente quando praticadas de forma extensiva, causando
profundas alterações na paisagem, em nível mundial. Nos sistemas
urbanos, também, são encontradas marcas profundas da intervenção
humana.

Essa situação se agravou a partir da Revolução Industrial, que criou
o modelo de capitalismo atual, cujos processos de produção
consideravam como pólos excludentes o homem e a natureza, com a
concepção desta como fonte ilimitada de recursos à sua disposição. A
partir dessa época, a capacidade produtiva humana começou a crescer
exponencialmente e a força de trabalho se tornou capaz de fabricar um
volume muito maior de produtos básicos, a custos reduzidos. Esse fato
elevou rapidamente o padrão de vida e os salários reais, fazendo
crescer a demanda dos diversos produtos das indústrias, lançando os
fundamentos do comércio moderno.

No entanto, o que se percebe, é que as sucessivas agressões que o
meio ambiente vem sofrendo em decorrência das atividades humanas, vêm
causando impactos negativos e causando uma série de prejuízos sócio-
econômicos e ambientais. Ao meio da crise econômica e ambiental
atuais, e de tamanha confusão, as pessoas, desinformadas, perguntam-
se: “o que fazer?”; “como fazer?”; “a quem recorrer”; ou “em quem
acreditar?” As alternativas são várias para solucionar tais
problemas; mas o que tem gerado bastante discussão é se as medidas
tomadas só defendem os interesses de cada país ou interesses
pessoais… ou se realmente pensam na coletividade… Será que
realmente existe a intenção de solução definitiva para as questões
sociais e ambientais?

Para exemplificar, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, depois
de fazer diversas reuniões com parlamentares da bancada ruralista,
entregou nessa semana à Casa Civil uma proposta que reduz as punições
contra desmatadores. Pressionado, ele aceitou alterar ou revogar
artigos do decreto que assinou no fim de julho, com o presidente
Lula, para endurecer a Lei de Crimes Ambientais. O anúncio foi feito
na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado. Na mesma
reunião, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, fez duras
críticas à legislação ambiental do país, dizendo: “se todas as regras
atuais forem respeitadas, é melhor fechar o Brasil”.

Ou seja, o nosso grande problema é que vivemos em um mundo
capitalista, onde negócios e lucros são as únicas referências, de
fato, consideradas importantes. Para se atingir esse objetivo,
incrementa-se o consumo, estimulado por campanhas maciças na mídia. O
modismo é outro aspecto que acaba nos influenciando: se um modelo de
computador está “na moda”, o que compramos há pouco tempo já parece
estar ultrapassado e isso faz com que acabemos comprando um novo
modelo. O mesmo acontece com o telefone celular e outros bens de
consumo.

Na verdade, esse comportamento é resultado de uma estratégia usada
pelo modelo capitalista que criou o consumismo obsoletista, onde um
produto já é lançado tendo o seu sucessor mais moderno na prateleira
para ser apresentado em pouco mais de seis meses ou um ano. Uma
verdade, que poucos se dão conta, é que nos dias atuais, de toda a
produção mundial, apenas 1% tem vida útil superior a seis meses e, em
nossa euforia de consumo, devido ao desconhecimento do ciclo de vida
dos produtos, não damos conta que é o meio ambiente que estará sendo
afetado. Não podemos esquecer que a primeira etapa da fabricação de
um produto se dá com a extração de recursos naturais, cuja exploração
está se dando de forma exagerada e desordenada, e o seu destino final
também será em um determinado local do ambiente.

Outra dimensão da insustentabilidade do consumo atual das economias
humanas passa pela forma socialmente desigual da distribuição das
riquezas e da renda. Ou seja, há uma pressão diferenciada exercida
pelos consumidores sobre os ecossistemas. Ao contrário, as populações
dos países ricos são responsáveis pela apropriação de 80% dos
recursos naturais e de energia, sendo que representam menos de 20% da
população global. Qual a conseqüência desse modelo? A atual crise
global da economia… e que afetará, indiscriminadamente, todos os
países do Planeta.

Na verdade, quando analisamos o comportamento da humanidade ao longo
de sua história, observamos um enorme fascínio pelo uso de novas
tecnologias, associadas ao desenvolvimento de novos produtos e, ou,
processos de produção. Porém, apesar de significativas vantagens
proporcionadas com essas inovações, servindo de auxílio para a
solução de grandes problemas, questiona-se a sua efetividade,
inclusive com inúmeras dúvidas sobre os efeitos à saúde, por exemplo,
quanto ao uso desse novo “brinquedo”, o telefone celular.

Nessa semana, especialistas de todo o mundo se reúnem no Rio de
Janeiro para discutir dados científicos relacionados aos efeitos
biológicos de radiações ionizantes, notadamente aquelas emitidas por
antenas e equipamentos de telefonia celular, estações transmissoras
de rádio e TV, linhas de transmissão e distribuição de energia
elétrica, além de discutir aspectos de proteção e limites de
exposição. A Comissão Internacional de Proteção contra as Radiações
Não-Ionizantes promove o encontro internacional com o objetivo de
apresentar os seus avanços científicos. As discussões subsidiam novas
recomendações para limites de exposição, conforme recomendação da
Organização Mundial da Saúde (OMS).

No futuro, há de se perceber, que os avanços científicos e
tecnológicos voltados para o setor produtivo, deverão permitir a
implantação de indústrias limpas, que estão na base de um crescimento
econômico mais equilibrado e integrado como o meio ambiente. O
primeiro passo para uma grande mudança é consumir menos e poder
utilizar os recursos naturais de maneira sustentável. Contudo, a
Educação Ambiental, que é o caminho mais curto para se atingir esse
objetivo, a sua efetiva inclusão no currículo, de forma
incompreensível, vem sendo protelada pelo Ministério da Educação.

De fato, carecem de uma visão equilibrada e integrada do meio
ambiente, holística e sistêmica, que favoreçam a própria gestão da
tecnologia. Os modos de produção necessitam de um novo modelo. No
meio urbano, a implantação de sistemas de gestão ambiental que
estimulem a produção mais limpa seria uma alternativa; na área rural,
os modelos de produção agroecológicos podem ser considerados
fortemente inseridos nessas propostas.

* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Ciências Florestais/Recuperação de
Áreas Degradadas e doutorando em Engenharia de Água e Solo pela UFV.
É professor do CEFET – Rio Pomba, coordenador dos cursos Técnico em
Meio Ambiente, EAD em Gestão Ambiental e Pós-graduação em
Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável; consultor do IBAMA e
conselheiro do COPAM da Zona da Mata, MG.
mauriciosnovaes@yahoo.com.br.

** Pedagoga e especialista em Agroecologia e Desenvolvimento
Sustentável. É professora das disciplinas Sociologia, Filosofia,
História e Políticas Educacionais do CEFET – Rio Pomba.
gecamau@yahoo.com.br.

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